O Reinado de Nossa Senhora do Rosário de Itapecerica-MG constitui uma tradição viva que articula fé, música, memória e pertencimento. Mais do que um evento festivo, trata-se de uma prática cultural contínua, sustentada pela participação coletiva dos ternos, capitães, músicos, festeiros e de toda a comunidade que, ano após ano, mantém a festa em movimento.

Nos cortejos, nas coroações, nos cantos e nos toques das caixas, manifesta-se uma forma própria de conhecimento, transmitida não por meio de instrução formal, mas pela convivência, pela escuta e pela experiência direta. Aprende-se observando, repetindo, participando — em um processo no qual o corpo, a voz e o gesto são fundamentais para a continuidade da tradição.

A figura do capitão ocupa papel central nesse contexto. É ele quem conduz os ternos, organiza os cortejos e, sobretudo, entoa os versos que orientam a ação coletiva. Sua voz não apenas lidera, mas também guarda e transmite a memória do Reinado, conectando diferentes tempos e gerações.

Os ternos — Catupés, Congadas, Marinheiros, Moçambiques e demais guardas — constituem a base dessa estrutura. Cada grupo possui suas particularidades, seus modos de tocar, cantar e se organizar, contribuindo para a diversidade e riqueza da manifestação.

Ao longo do tempo, o Reinado se transforma, mas preserva elementos essenciais que asseguram sua continuidade. A tradição, nesse sentido, não é algo fixo, mas um processo coletivo, renovado a cada edição da festa.

Reconhecer o Reinado como patrimônio cultural é compreender que nele se inscrevem formas de saber, modos de vida e experiências históricas que ultrapassam a dimensão religiosa e festiva. Trata-se de um espaço de formação, memória e identidade.

Santos do Reinado

Os santos do Reinado de Nossa Senhora do Rosário constituem o fundamento espiritual da festa, orientando seus rituais, seus cantos e o sentido de devoção que sustenta a tradição ao longo do tempo. Mais do que referências religiosas, essas presenças sagradas organizam a vida simbólica do Reinado, sendo invocadas nos cortejos, nas coroações e nos momentos de encontro entre as guardas.

Entre essas devoções, destaca-se Nossa Senhora do Rosário, figura central da festa, cuja proteção reúne os ternos e a comunidade em torno de uma mesma fé. Sua presença orienta o calendário do Reinado e simboliza o vínculo profundo entre religiosidade, memória e identidade coletiva.

Santa Efigênia, reconhecida como símbolo de resistência e fé, é também reverenciada como expressão da força espiritual que atravessa a história do povo negro. Sua devoção reafirma a dimensão ancestral do Reinado, conectando a tradição às suas origens africanas e à experiência de luta e permanência.

São Benedito, amplamente cultuado nas manifestações do Rosário, é lembrado por sua humildade e devoção. Sua presença no Reinado reforça valores como solidariedade, partilha e cuidado com a comunidade, sendo frequentemente associado à proteção dos participantes e à condução dos festejos.

Nossa Senhora das Mercês ocupa igualmente lugar de destaque, associada à libertação e à proteção dos que sofrem. Sua devoção dialoga diretamente com a história dos povos negros no Brasil, sendo incorporada ao Reinado como expressão de fé e esperança.

Santo Antônio do Categeró, profundamente ligado às tradições do Rosário, representa a dimensão popular da devoção, marcada pela proximidade com o povo e pela presença constante nas práticas culturais. Sua figura reforça o caráter comunitário do Reinado, em que o sagrado se manifesta no cotidiano e na vida coletiva.

Capitão-Mor Antônio Anielo D`Alessandro

Antônio Anielo D’Alessandro é reconhecido como Capitão-Mor do Reinado de Nossa Senhora do Rosário de Itapecerica-MG, ocupando a mais alta posição de liderança ritual entre os capitães das guardas.

Sua trajetória no Reinado atravessa décadas de participação contínua, iniciada ainda na juventude, quando passou a integrar os ternos e a aprender, pela prática e convivência, os fundamentos da tradição. Ao longo do tempo, percorreu diferentes funções dentro da estrutura das guardas, consolidando-se como uma das principais referências na condução dos rituais e na preservação dos saberes do Rosário.

Na condição de Capitão-Mor, exerce papel central na organização dos cortejos, na orientação dos capitães e na garantia do respeito às hierarquias, aos tempos e aos fundamentos da festa. Sua atuação não se limita à condução das atividades visíveis do Reinado, mas se estende à manutenção dos princípios que sustentam a tradição, transmitidos por meio da oralidade, da prática e da experiência acumulada.

A voz do Capitão-Mor ocupa lugar de destaque nesse contexto. Por meio dos cantos, versos e chamadas, orienta o andamento dos ternos, estabelece o ritmo dos cortejos e reafirma a memória coletiva do Reinado. Sua fala e seu canto não apenas conduzem, mas guardam e atualizam os sentidos da tradição.

Reconhecido pela comunidade como guardião dos fundamentos do Reinado, Antônio Anielo D’Alessandro representa a continuidade de um saber que não se encontra sistematizado em registros escritos, mas que se mantém vivo na prática, na escuta e na convivência entre gerações.

Sua presença reafirma o Reinado como uma tradição viva, sustentada por mestres e lideranças que asseguram sua permanência no tempo.